segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Para Iemanjá - Marcelino Freire




Oferenda não é essa perna-de-sofá, essa marca de pneu, esse óleo, esse breu, peixes entulhados, assassinados, minha rainha. Não são oferendas essas latas e caixas, esse resto de navio, baleias encalhadas, pingüins, tupiniquins mortos e afins, minha rainha. Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca, essas flores de bosta, não mijei na tua praia. Juro que não fui eu, minha rainha. Oferendas não são os criollos da Guiné, os negros de Cuba, na luta cruzando a nado, caçados, fisgados, náufragos, minha rainha! Não são para o teu altar essas lanchas e iates, esse transatlânticos, submarinos de guerra, ilhas de ozônio, minha rainha. Oferenda não é essa maré de merda, esse tempo doente, deriva e degelo deste dia 2 de fevereiro. Peço perdão, minha rainha, se a minha esperança é um grão de sal, espuma de sabão, nenhuma "terra à vista" deste oceano de medo, nada, minha rainha.